GPTW Brasil 2026: por que desenvolver lideranças também depende do desenho do escritório
O GPTW Brasil 2026 aponta liderança como prioridade do RH. Entenda como layout, mobiliário e espaços de conversa influenciam mentoria, feedback e aprendizagem.
O dado que o RH não pode ler de forma isolada
O relatório GPTW Brasil — Tendências de Gestão de Pessoas 2026 colocou o desenvolvimento e a capacitação de lideranças como a principal prioridade das empresas brasileiras. Segundo a análise da pesquisa, 57,4% dos respondentes apontaram liderança como tema central para 2026, à frente de pautas que dominaram anos anteriores, como saúde mental, diversidade e inclusão. A mesma edição informa que a pesquisa contou com 1.577 respondentes, com dados coletados entre novembro e dezembro de 2025.
Esse dado precisa ser lido com atenção. Quando o RH afirma que desenvolver líderes é prioridade, ele não está falando apenas de cursos, trilhas de aprendizagem, plataformas de treinamento ou avaliações de desempenho.
Ele está falando, ainda que indiretamente, sobre a forma como as pessoas aprendem a liderar dentro da rotina real da empresa.
E essa rotina acontece em algum lugar.
A liderança se forma nas reuniões difíceis, nas conversas de alinhamento, nos feedbacks dados no momento certo, na observação de líderes mais experientes, na convivência entre áreas e na capacidade de transformar conflito, erro e pressão em aprendizado.
Por isso, o escritório deixa de ser apenas um local de trabalho. Ele passa a ser parte da infraestrutura de desenvolvimento humano da organização.
Liderança não se desenvolve apenas em sala de treinamento
Durante muito tempo, o desenvolvimento de liderança foi tratado como uma atividade separada da operação. A empresa identificava profissionais com potencial, montava uma trilha de treinamento, aplicava workshops, contratava consultorias e esperava que o comportamento mudasse.
Esse modelo continua tendo valor, mas é incompleto.
Na prática, liderar é uma competência social. Ela envolve comunicação, leitura de contexto, tomada de decisão, escuta, gestão de tensão, negociação, capacidade de dar direção e habilidade para desenvolver outras pessoas.
Essas competências não são absorvidas apenas por conteúdo formal. Elas são aprendidas principalmente por prática, convivência e repetição.
A teoria da aprendizagem social, associada ao trabalho de Albert Bandura, ajuda a explicar esse ponto: pessoas aprendem observando comportamentos, interpretando suas consequências e reproduzindo modelos percebidos como eficazes. Estudos aplicados à gestão reforçam que líderes e gestores funcionam como modelos de comportamento dentro das organizações.
Em outras palavras: o futuro líder aprende observando como o líder atual conduz uma reunião, lida com divergências, responde a erros, organiza prioridades e conversa com pessoas em momentos de pressão.
Isso não acontece bem em qualquer ambiente.
O escritório como ambiente de aprendizagem social
Se liderança é aprendida por observação, interação e prática, o desenho do escritório interfere diretamente nesse processo.
Um escritório composto apenas por estações abertas, salas disputadas e poucos espaços intermediários tende a empurrar as conversas importantes para dois extremos: ou tudo acontece de forma exposta, diante de todos, ou tudo precisa ser formalizado em reuniões fechadas.
Nenhum dos dois extremos é suficiente.
O desenvolvimento de liderança depende de uma variedade de situações:
- conversas rápidas entre gestor e liderado;
- feedbacks reservados;
- reuniões de decisão com pequenos grupos;
- acompanhamento de profissionais menos experientes;
- mentoria informal;
- trabalho em dupla;
- observação de líderes em situações reais;
- momentos de preparação antes de conversas difíceis;
- reuniões de retrospectiva depois de projetos, erros ou entregas críticas.
Esse ponto é essencial: se o ambiente não permite alternar entre concentração, conversa, colaboração e privacidade, ele limita o aprendizado organizacional.
Feedback exige espaço adequado
Poucas práticas são tão importantes para formar líderes quanto o feedback. Mas feedback não é apenas uma técnica de comunicação. É uma situação psicológica delicada.
Para quem recebe, envolve exposição, vulnerabilidade e possível desconforto. Para quem dá, exige clareza, responsabilidade e capacidade de conduzir a conversa sem humilhação, ambiguidade ou fuga.
Ambientes inadequados empobrecem esse processo.
Quando não há uma sala pequena disponível, uma cabine de conversa, um espaço semi-privado ou um lounge reservado, o feedback tende a ser adiado, superficial ou realizado em condições ruins: no corredor, em uma mesa aberta, por mensagem ou em uma reunião formal demais.
Isso afeta diretamente a cultura de liderança.
A segurança psicológica, conceito amplamente associado à professora Amy Edmondson, descreve a condição em que as pessoas conseguem falar, perguntar, admitir erros e discordar sem medo de punição ou humilhação. A literatura sobre o tema reforça que equipes com maior segurança psicológica aprendem melhor, discutem problemas com mais franqueza e lidam melhor com erros.
O espaço físico não cria segurança psicológica sozinho. Mas ele pode facilitar ou inibir os comportamentos que a constroem.
Uma empresa que afirma valorizar conversas francas, mas não oferece lugares adequados para conversas francas, cria uma incoerência silenciosa entre discurso e prática.
O líder se forma também pela convivência com outros líderes
Outro ponto importante é o papel do capital social.
No trabalho híbrido, muitas empresas perceberam que produtividade individual não é o único problema. A dificuldade maior está em preservar vínculos, confiança, repertório coletivo e circulação de conhecimento entre pessoas e áreas.
A Microsoft, em seus relatórios sobre trabalho híbrido, apontou a reconstrução do capital social como um dos grandes desafios do novo modelo de trabalho. Também destacou que líderes precisam tornar o escritório relevante o suficiente para justificar a presença física.
Essa discussão é central para o RH.
Lideranças não se formam apenas em relação vertical, entre chefe e subordinado. Elas se formam também em relações laterais: líderes aprendendo com outros líderes, gestores compartilhando dilemas, profissionais observando como áreas diferentes tomam decisão e equipes compreendendo melhor a organização como sistema.
Isso exige espaços de encontro.
Não necessariamente grandes auditórios ou salas formais. Muitas vezes, os lugares mais importantes são menores e mais frequentes: uma mesa de apoio para conversa entre áreas, uma sala para quatro pessoas, um lounge com boa acústica, uma área de projeto, uma bancada para trabalho em par, uma sala de reunião rápida próxima das equipes.
Quando esses espaços não existem, a empresa perde uma parte do aprendizado informal que sustenta a formação de lideranças.
Escritórios mal desenhados produzem ruído gerencial
Um escritório pode ajudar a formar líderes. Mas também pode fazer o contrário.
Ambientes com ruído excessivo, falta de privacidade, mobiliário inadequado, salas insuficientes e baixa flexibilidade aumentam o custo mental da rotina. Pequenos atritos se acumulam: a reunião que não encontra sala, a conversa confidencial que precisa ser adiada, o gestor que evita feedback porque não há privacidade, a equipe que se dispersa porque o ambiente não permite foco.
Esses problemas parecem operacionais, mas têm efeito gerencial.
Eles reduzem a qualidade das conversas, aumentam a informalidade ruim, dificultam o acompanhamento de pessoas e tornam a liderança mais reativa.
A Steelcase, em pesquisas sobre colaboração e privacidade, destaca que as pessoas passam parte relevante do tempo trabalhando em conjunto e que a privacidade se tornou uma das necessidades mais citadas no trabalho, especialmente quando há demanda por foco, colaboração e bem-estar.
Para o RH, isso significa que layout não é apenas uma decisão estética ou patrimonial. É uma decisão sobre como a empresa quer que as pessoas conversem, aprendam, decidam e amadureçam.
O erro comum: pensar mobiliário apenas como posto de trabalho
Muitas empresas ainda compram mobiliário a partir de uma pergunta limitada: “quantas pessoas cabem neste espaço?”
Essa pergunta é necessária, mas insuficiente.
Para uma empresa que tem desenvolvimento de liderança como prioridade, a pergunta deveria ser mais ampla:
Que tipos de interação precisam acontecer aqui para que líderes se formem?
A resposta muda o projeto.
Não basta prever mesas, cadeiras e armários. É necessário pensar em ecossistema de uso:
1. Espaços para feedback e conversas sensíveis
Salas pequenas, cabines acústicas ou ambientes reservados para conversas entre duas ou três pessoas. Esses espaços reduzem a exposição e permitem conversas mais objetivas.
2. Áreas para mentoria informal
Lounges corporativos, mesas baixas, poltronas e pontos de conversa próximos às áreas de trabalho. O objetivo não é criar uma área decorativa, mas um lugar onde conversas rápidas possam acontecer sem interromper a operação.
3. Salas flexíveis para aprendizagem em grupo
Ambientes com mobiliário reconfigurável, apoio audiovisual e possibilidade de alternar entre apresentação, discussão e trabalho em pequenos grupos.
4. Postos que favoreçam acompanhamento
Áreas onde líderes consigam estar próximos da equipe sem controlar excessivamente a rotina. A proximidade física pode favorecer orientação, desde que não se transforme em vigilância.
5. Ambientes com tratamento acústico
Sem conforto acústico, a conversa relevante compete com distração. Ruído excessivo prejudica foco, privacidade e qualidade das interações.
6. Espaços de transição
Corredores úteis, áreas de espera, copas bem posicionadas e pontos de encontro informal também têm papel importante. Muitas decisões e alinhamentos começam fora da sala de reunião.
Liderança exige presença, mas presença precisa ter função
O debate sobre retorno ao escritório muitas vezes fica preso a uma oposição simplista: presencial contra remoto.
Para o desenvolvimento de liderança, a pergunta mais importante é outra:
Quando a presença física gera aprendizado que o digital não entrega com a mesma qualidade?
A resposta aparece em situações específicas: feedback, mentoria, observação, integração, gestão de conflitos, leitura de clima, desenvolvimento de novos gestores, aprendizagem entre pares e construção de confiança.
Nesses casos, a presença tem função.
Mas presença sem ambiente adequado vira apenas deslocamento. O profissional vai ao escritório, encontra ruído, falta de sala, excesso de improviso e pouca clareza de uso. O resultado é frustração.
Por isso, o escritório precisa ser desenhado para justificar sua própria existência. Ele deve oferecer condições melhores para aquilo que depende de encontro humano qualificado.
O que o RH deve observar antes de redesenhar o escritório
Antes de decidir mobiliário, layout ou reforma, o RH pode fazer algumas perguntas objetivas:
As conversas de feedback acontecem com frequência e qualidade?
Se a resposta for não, talvez o problema não esteja apenas na liderança. Pode faltar espaço adequado para conversas reservadas.
Novos líderes conseguem observar líderes experientes em ação?
Se tudo acontece isolado, remoto ou em salas fechadas demais, a aprendizagem por observação fica limitada.
As áreas convivem ou apenas se cruzam?
A formação de líderes exige leitura sistêmica da empresa. Isso depende de interação entre áreas, não apenas de organograma.
Existem lugares para conversas rápidas sem exposição excessiva?
Nem toda conversa merece sala formal. Mas muitas conversas precisam de alguma privacidade.
O ambiente ajuda ou atrapalha a concentração dos gestores?
Liderar exige disponibilidade cognitiva. Ambientes ruidosos e mal organizados reduzem a capacidade de escuta e decisão.
O escritório comunica a cultura que a empresa deseja praticar?
Se a empresa fala em colaboração, mas não oferece espaços colaborativos; fala em feedback, mas não oferece privacidade; fala em aprendizagem, mas não oferece flexibilidade, existe desalinhamento entre cultura declarada e ambiente real.
Desenvolvimento de liderança é também uma decisão espacial
O dado do GPTW Brasil 2026 mostra que o RH brasileiro está olhando para liderança como prioridade central. Isso faz sentido. Em um cenário de dificuldade de contratação, pressão por produtividade, retenção de talentos e adaptação ao trabalho híbrido, a qualidade da liderança se torna fator decisivo.
Mas formar líderes não depende apenas de programas formais.
Depende de criar condições para que comportamentos de liderança sejam praticados, observados, corrigidos e amadurecidos no cotidiano.
O escritório entra exatamente nesse ponto.
Ele pode ser apenas uma estrutura física onde as pessoas trabalham. Ou pode ser uma ferramenta de gestão: um ambiente desenhado para favorecer conversas melhores, decisões mais claras, aprendizagem social, segurança psicológica, mentoria, integração e desenvolvimento de lideranças.
Quando o RH pensa o espaço dessa forma, o mobiliário deixa de ser item de compra e passa a ser parte da estratégia de desenvolvimento organizacional.
A pergunta, portanto, não é apenas se a empresa tem um escritório bonito, moderno ou bem ocupado.
A pergunta mais importante é:
o escritório atual ajuda a formar os líderes que a empresa vai precisar nos próximos anos?
CONCLUSÃO
O escritório pode ajudar — ou dificultar — a formação de lideranças.
A Dikta ajuda empresas a desenhar ambientes corporativos que favorecem:
- feedback
- mentoria
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- privacidade
- aprendizagem social
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FAQ
O escritório realmente influencia desenvolvimento de liderança?
Sim. Liderança depende de interação social, observação prática, feedback e convivência organizacional.
O que é aprendizagem social no ambiente corporativo?
É o aprendizado que ocorre por observação, convivência e modelagem de comportamento dentro da rotina real da empresa.
Segurança psicológica depende do espaço físico?
Não exclusivamente. Mas privacidade, acústica e qualidade do ambiente influenciam conversas difíceis e feedbacks.
O open plan dificulta desenvolvimento de liderança?
Não necessariamente. O problema normalmente está na ausência de zonas intermediárias, privacidade e controle acústico.
Cabines acústicas ajudam em feedback e mentoria?
Sim. Elas criam ambientes mais adequados para conversas reservadas e acompanhamento de pessoas.
O RH deveria participar do desenho do escritório?
Sim. O ambiente físico influencia colaboração, aprendizagem, liderança e cultura organizacional.
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